Bola Cheia
Estruturas, perfis, tubos e vergalhões constituem o grosso dos produtos minero-metalúrgicos (aço e alumínio) que estarão na mira dos responsáveis pela aplicação de R$ 48,8 bilhões na construção da infraestrutura necessária para suportar a Copa do Mundo, de 2014, e as Olimpíadas, de 2016. O montante calculado por órgãos do Governo Federal será investido na construção ou reforma de aeroportos, portos, estádios, hotéis e melhoria de serviços urbanos nas 12 capitais selecionadas para sediar as competições.
As demandas relativas à Copa foram levantadas pela Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) mediante termo de cooperação técnica assinado com o Ministério do Esporte e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), visando subsidiar as ações da União, estados e municípios. Já o estudo sobre as necessidades das Olimpíadas, restritas ao estado do Rio de Janeiro, ficou a cargo da Fundação Instituto de Administração, ligada ao Ministério. O orçamento da Copa foi estimado em R$ 20 bilhões e das Olimpíadas, R$ 28,8 bilhões.
A construção civil lidera o ranking dos segmentos que serão beneficiados pelos investimentos dos jogos olímpicos e para-olímpicos, seguida pelo setor imobiliário, serviços prestados por empresas de informação, petróleo e gás, transporte, armazenagem e correio. O impacto da Copa depende das defasagens estruturais de cada metrópole, segundo o estudo da Abdib.
São Paulo - até pela sua dimensão geográfica e importância sócioeconômica - é a cidade que necessita de maior volume de recursos para aplicação em planos adicionais de adaptação de sua infraestrutura às exigências da Copa, ou seja, R$ 6,96 bilhões. Os maiores gargalos estão na mobilidade urbana, rede hospitalar e suprimento de energia. Na sequência, as três capitais mais necessitadas são Manaus (R$ 2,6 bilhões), Salvador (R$ 2,2 bilhões) e Fortaleza (R$ 1,9 bilhão).
Com base em estimativa do Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA), Luis Fernando Martinez, diretor comercial de mercado interno da CSN, informa que "as obras ligadas à Copa devem proporcionar à indústria siderúrgica um acréscimo de produção de 3 a 5 milhões de toneladas". Esse montante equivale a um aumento de 700 mil toneladas na demanda interna de aço, volume que tende a crescer com as olimpíadas, segundo ele.
Para os produtos não ferrosos, não existem dados precisos sobre demanda. Porém, José Carlos Cattel, da Alcoa, afirma que "o mercado da construção civil, um dos mais dinâmicos da economia brasileira, destaca-se pelo significativo uso de alumínio, representando hoje cerca de 15% do volume do metal utilizado no Brasil".
Um forte fator de risco que ameaça frustrar a expectativa positiva dos agentes econômicos em relação aos investimentos desses megaeventos é gestão e prazo de execução, adverte José Roberto Bernasconi, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco). Bernasconi diz que muitas obras, principalmente os estádios, já deveriam ter começado. Mas estão na dependência de projetos e liberação de recursos por parte dos órgãos financiadores, entre os quais o BNDES.
Pela chamada Matriz de Responsabilidades para a Copa do Mundo Fifa 2014, instância de poder formada no âmbito do Governo Federal, cabe à União, às prefeituras e aos governadores das cidades-sede do mundial gerir os projetos e os recursos necessários. Atualmente, há cerca de R$ 2,5 bilhões autorizados para melhorias em aeroportos, segundo informação do Ministério do Esporte. Em relação aos portos, os investimentos são de R$ 677 milhões e para a mobilidade urbana, R$ 11,2 bilhões.
As fontes desses recursos são do Governo Federal, mas a contrapartida virá das cidades e estados envolvidos no evento. O BNDES, por sua vez, criou uma linha de financiamento com R$ 4,8 bilhões destinados aos estádios e R$ 1 bilhão, para hotelaria.
Em relação aos projetos para as Olimpíadas, a responsabilidade executiva cabe ao governo do estado do Rio de Janeiro e à prefeitura, articulados com outras esferas vinculadas ao Comitê Organizador. O dossiê da candidatura do Rio estipulou investimento total de US$ 14,4 bilhões (R$ 28,8 bilhões), assim distribuídos no projeto olímpico:
US$ 2,8 bilhões (ou R$ 5,6 bilhões) para a estrutura do Comitê Organizador; e outros U$ 11,6 bilhões (R$ 23,2 bilhões) em recursos públicos e privados destinados à infraestrutura.
O estudo de impacto macroeconômico encomendado pelo Ministério do Esporte conclui que esses gastos terão efeito multiplicador sobre vários setores da economia, conforme referido acima. A expectativa do secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, coordenador do estudo, é que haja, portanto, uma movimentação de US$ 51,1 bilhões no período de 2009 a 2027 (R$ 102,2 bilhões se considerada a paridade cambial prevista no dossiê US$ 1 = R$ 2).
Para cada dólar investido, espera-se que a iniciativa privada aplique outros US$ 3,26 nas cadeias produtivas associadas ao evento. Ainda segundo as estimativas oficiais, os Jogos agregariam ao PIB brasileiro o equivalente a US$ l1 bilhões (R$ 22 bilhões), entre 2009 e 2016. No mesmo período, a geração de novos empregos atingiria 120.833 postos diretos e indiretos, principalmente na construção civil.
TOLERÂNCIA ZERO PARA O IMPROVISO
As chances de sucesso ou fracasso de qualquer empreendimento dependem da clareza de objetivos, precisão dos custos, pessoal qualificado, cumprimento dos prazos, financiamento garantido e parcerias confiáveis. No limite, vale também a convicção de que quanto mais complexo o projeto, menor é a tolerância ao improviso.
A receita se ajusta inclusive à execução de grandes eventos como os da Copa/Olimpíadas, segundo Maurício Vizeu de Castro, diretor de desenvolvimento de novos negócios da Método Engenharia. De olho nas perspectivas da infraestrutura no Brasil, sua empresa acaba de fechar uma parceria estratégica com a norte-americana CH2M Hill, especializada em grandes projetos na área. O objetivo da Método é estabelecer sinergias para diversificar seu portfólio, buscando oportunidades de construção no setor industrial e de petróleo e gás, em particular. Teoricamente, diz Castro, a logística de execução é um dos fatores críticos na engenharia de projetos, pois, muitas vezes, ela depende de equipamentos de uso temporário, transporte e recepção de materiais em locais de difícil acesso. Outra preocupação é o emprego de materiais e equipamentos inovadores, que demandam testes e treinamento de pessoal.
"A engenharia de projetos é o cérebro e o coração do que está sendo concebido. Sem esses órgãos vitais, o que deve ser construído não terá vida" compara o engenheiro Marcelo Sampaio Martins, gerente de gestão de projetos da Davinci Engenharia.
São inúmeras as variáveis que devem ser controladas em projetos como os da Copa/Olimpíadas e pode haver mudanças de status, dependendo da gestão. Em sua opinião, apoio governamental, sinergia entre as equipes e o envolvimento das comunidades locais merecem destaque, lembrando que elas podem ser impactadas por fatores como liberação de licenças ambientais, burocracia e troca de governo.
Recomenda-se, também, monitorar a gestão através de softwares especializa-dos, definindo, alimentando e alinhando seus indicadores de desempenho, aconselha Castro, da Método. A escolha adequada do modelo de gestão/parceria centralizado, descentralizado, participativo etc. também é decisiva.
Marcelo, da Davinci Engenharia, prefere as Parcerias Público-Privadas (PPPs) para a Copa/Olimpíadas. Elas viabilizam a participação de empresas na oferta, ampliação ou melhoria da eficiência de serviços públicos. Além disso, direcionam os recursos públicos para áreas de atuação exclusiva do estado, justifica.
Metalúrgica e Materiais