SÃO PAULO - O mercado de construção industrial sinaliza um crescimento apoiado no posicionamento econômico do Brasil pós-crise, mas, mais do que isso, uma descentralização dessas indústrias deve marcar um novo momento na expansão do País. A Método Engenharia vai colocar mais de R$ 500 milhões na construção de fábricas no nordeste do Brasil em 2010, segundo Maurício Vizeu de Castro, diretor da unidade de Negócios Industriais da empresa. "É importante notar essa mudança no eixo [de instalação de empresas no País]", afirma.
"O Ceará é um dos estados com maior crescimento da demanda por imóveis industriais", afirma ele. Para Castro, há também demanda estrangeira por instalações no País. "Centros de distribuição tiveram uma retomada muito forte", diz ele, porque a crise econômica que se abateu sobre a economia mundial principalmente após setembro de 2008 arrefeceu também este mercado.
A Método, que faturou R$ 488 milhões ano passado, espera que os resultados deste ano sejam semelhantes aos do ano passado em função da crise. Para 2010, no entanto, segundo Castro, pode-se esperar um crescimento na ordem de 25%.
Três grandes projetos da Método no ano que vem devem movimentar cerca de R$ 700 milhões. De acordo com Castro, um grande projeto de indústria farmacêutica e um outro, de alta tecnologia, vão se instalar no nordeste. "Ambos são de empresas estrangeiras", afirma o diretor.
A WTorre Engenharia é outra que investiu perto de R$ 290 milhões em projetos em construção especulativa (imóveis para alugar) com execução prevista para 2010 num total de quase 2 milhões de metros quadrados. Solano Neiva, diretor executivo da WTorre, comenta que as áreas foram adquiridas entre 2006 e 2007 e, durante o período da crise financeira, puderam agilizar os trâmites burocráticos e de regulamentação. "O tempo de regularização é de dois a três anos, quando rápido." Neiva ressalta a importância da regulamentação desses empreendimentos e o papel do estado na garantia de condições adequadas de operação. "Áreas construídas à beira de estrada ou dentro do perímetro dos municípios são impactantes, por isso tem tanta importância a regulamentação", ressalta.
A empresa deve entregar, no primeiro trimestre de 2011, cerca de 900 mil m² de área coberta dos empreendimentos a se iniciarem com o próximo ano. Segundo Neiva, algumas áreas têm potencial de retorno de cerca de R$ 18 por m². Fora do eixo Rio-São Paulo, a WTorre também deve entregar, nesse lote de empreendimentos, pelo menos 100 mil metros quadrados em Recife (PE), conforme Neiva, a um investimento inicial de R$ 60 milhões.
Brasileiras de olho
"Mais importantes que investimentos internacionais são os nacionais de grande porte na área de construção especulativa", crê Eduardo Herzog, presidente da Herzog Imóveis Industriais e Comerciais. A empresa de Herzog investiu R$ 27 milhões no empreendimento a ser lançado no Vale do Paraíba: um terreno de 750 mil m² com 250 mil m² de área construída será destinado à operação de condomínios industriais.
Herzog aponta o Vale como uma região de grande potencial em função dos investimentos em infraestrutura. Segundo ele, a região de Lavrinhas e Queluz, no interior de São Paulo, abrigará duas novas usinas hidroelétricas, o que deve potencializar os investimentos industriais na região do Vale do Paraíba.
As usinas, construídas pela Cia Técnica de Engenharia Elétrica Alusa, receberam, somadas, investimento de R$ 340 milhões. Carlos Graça, engenheiro responsável pela obra, acredita no potencial de desenvolvimento da região com a implantação das duas Pequenas Centrais Hidroelétricas (PCH), com potência de 30 megawatts cada. "A disponibilidade de energia aumenta a confiabilidade da região", afirma.
A usina de Queluz deve entrar em funcionamento em março e, logo em seguida, a de Lavrinhas começa a operar em julho, segundo Graça. Anualmente as usinas terão 368 mil megawatts-hora de energia assegurada, segundo planejamento da empresa.
Até dezembro de 2009, segundo o Ministério da Integração Nacional, outras sete obras de infraestrutura hídrica serão inauguradas em cumprimento do PAC. O 8º Balanço do Programa, divulgado na última quinta-feira (7), dá conta de investimentos de R$ 251,5 milhões e já concluiu 33,2 % das obras, segundo o Ministério da Integração.
Marcos Montandon, diretor do Departamento Industrial da CB Richard Ellis (CBRE), diz que os incentivos fiscais estaduais e municipais podem deslocar a demanda por imóveis industriais e parques logísticos dos grandes polos nos quais hoje se concentram. "Incentivos mais pesados vêm mesmo do estado, pois os incentivos municipais são menores", mas não menos importantes, como completa Montandon.
Segundo Montandon, a região da Grande São Paulo e a área metropolitana da cidade de Campinas devem ter maior crescimento, uma vez que são "responsáveis por quase 24% do Produto Interno Bruto (PIB) do País", afirma. Montandon enfatiza que os investimentos em infraestrutura do governo federal em conjunto com os governos dos estados darão "mais mobilidade às empresas".
A CBRE tem recebido, nos últimos dois meses, "crescentes demandas de empresas estrangeiras sem sede no Brasil". Segundo ele, são empresas de tecnologia da informação, infraestrutura e agronegócios. O País foi promovido, no fim do mês de setembro, pela agência norte-americana de classificação de risco Moody's, ao grau de investimento, o que significa que o Brasil passa a ser mais seguro para investidores.
As expectativas do mercado de construção industrial não poderiam ser melhores com relação aos investimentos do governo federal em infraestrutura no País. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) investiu R$ 338,4 bilhões entre janeiro de 2007 e agosto de 2009, conforme anunciado na última semana. Os gastos equivalem a 53,6% dos investimentos previstos até 2010.
DCI