Fundada em 1973, a Método Engenharia se consolidou como uma das maiores construtoras do País na área de edificações. Hugo Marques da Rosa, presidente e sócio-fundador da empresa, diz que o core business é bastante diverso. Acrescenta que ao longo desse tempo, a Método teve a oportunidade de construir mais de 5 milhões de metros quadrados em quase todos os segmentos de edificações e construções: desde empreendimentos residenciais e comerciais até shopping centers, centros de distribuição, indústrias, escolas, hospitais e hotéis. Marques da Rosa atribui ao modelo de gestão - com unidades específicas para atender cada setor - e à entrada em segmentos como energia, mineração e óleo e gás a expectativa de crescimento de 25% em 2009 em relação ao ano passado, com operações que devem atingir R$ 530 milhões.
Gazeta Mercantil - Para cada segmento há uma unidade específica?
Já faz algum tempo que estamos organizados em unidades de negócios voltadas para determinados segmentos de mercado. Nós temos uma unidade que se ocupa de redes de varejo, constrói para grandes clientes como, por exemplo, postos de combustíveis, agências bancárias, redes de fast-food, redes de lojas de varejo. Assim como temos uma unidade voltada para hotéis e hospitais - aqui juntamos dois tipos de estruturas semelhantes, uma vez que hospitais são hotéis destinados a clientes com necessidades especiais. Temos outra unidade voltada para a indústria, outra para construções comerciais (shopping centers, centros de distribuição e escolas) e outra ainda para atender o segmento imobiliário.
Gazeta Mercantil - Como tem sido a atuação da Método no segmento imobiliário?
Atuamos no residencial e no comercial, mas nos últimos anos, temos nos dedicado mais ao comercial. Nós atuamos no segmento residencial, como incorporadores, desde 1987, e ao longo desse tempo, teve uma época em que nós desenvolvíamos sozinhos nossos empreendimentos. Em um segundo momento, desenvolvíamos empreendimentos com terceiros. Desenvolve-mos vários projetos com a Brascan e outras incorporadoras e também fizemos obras para terceiros, mas atuamos apenas como empresa construtora, não participamos do desenvolvimento imobiliário. O que acontece no momento, é que grande parte das incorporadoras também constrói e como nós não temos nos dedicado à incorporação imobiliária no período mais recente, nós temos tido uma atuação menor no segmento residencial. Já no segmento comercial, temos feito muitas coisas. Também atuamos como incorporadores e em outros casos apenas como construtora.
Gazeta Mercantil - Cada uma dessas unidades específicas é responsável por qual fatia no faturamento da empresa?
Hoje isso é bem equilibrado. Circunstancialmente uma unidade de negócios pode estar produzindo mais do que outra, mas nossa intenção é que essas unidades tenham uma atuação mais ou menos equilibrada, de maneira, inclusive, a diversificar o risco. A vantagem que nós temos com isso é que em todos os segmentos da construção sempre se tem ciclos. Por exemplo: existem ciclos de construção de hotéis nas principais capitais, tem ciclo de construções de resorts no Nordeste, ciclo de construção de edifícios de escritórios de alto padrão, assim, estando mais diversificados, nós temos uma possibilidade menor de ficar dependendo tanto de um determinado segmento.
Gazeta Mercantil - Atualmente, qual o segmento que está melhor?
Hoje, é difícil dizer o que está melhor, mas um segmento que está conseguindo atravessar a crise muito bem é o do varejo (tanto grandes lojas, como centros de distribuição). Nossos clientes estão mantendo seus investimentos, pois é um segmento que, mesmo em momentos em que a economia como um todo não está crescendo, ele consegue um bom resultado. Nós tivemos a felicidade de entrar 2009 com uma carteira de contratos muito boa. Assim, este ano, apesar da crise, nós esperamos crescer 25% em relação ao ano passado e alcançarmos em todas nossas operações no Brasil cerca de R$ 530 milhões. Percebemos que muitas empresas estão adiando seus planos de investimentos para o segundo semestre, mas como grande parte do que pretendemos construir este ano são contratos que já estavam assinados na virada do ano, a influência desse adiamento de investimentos não deve ser muito grande.
Gazeta Mercantil - Como vocês estão sentindo a crise?
Nós temos sentido que aqueles processos dos quais estávamos participando, e que não estavam contratados ainda, sofreram uma postergação de decisões, principalmente no segmento industrial, para o segundo semestre. Nós não sentimos a crise ainda. A grande questão que nós temos hoje é que nós temos em 2009 de construir 2010 e 2011. Então como nós vamos produzir mais e faturar mais este ano do que no ano passado, temos o desafio de contratar mais para repor aquilo que estamos contratando hoje, para repor a carteira. O nosso desafio é exatamente este: conseguir este ano repor a carteira, contratar um volume igual ou maior do que aquele que vamos produzir.
Gazeta Mercantil - O que a empresa está fazendo nesse sentido?
A estratégia que nós estamos usando é não depender exclusivamente de obras para terceiros, mas também ter uma carteira de empreendimentos próprios, nos quais somos o gerador do projeto para com isso termos uma alternativa para um possível redução que possa haver em nossos contratos para terceiros. Este ano, nós estamos muito focados em shopping centers pequenos e médios para atender necessidades regionais, associados a regiões com grande fluxo de pessoas, por exemplo, em estações de metrô.
Gazeta Mercantil - Já há algum projeto em andamento?
Estamos desenvolvendo um primeiro projeto desse tipo na estação Vila Madalena do metrô. Já ganhamos a concorrência, assinamos o contrato com o metrô e o projeto está na Prefeitura de São Paulo para aprovação. É uma obra que devemos iniciar no segundo semestre, assim que a Prefeitura aprovar. Esse é um tipo de shopping que tem uma característica diferente dos shoppings tradicionais, pois é um shopping que funciona muito durante a semana toda e não aquele que tem concentrado seu maior volume de movimento nos finais de semana. E shoppings como esse têm sido um sucesso, como exemplo, podemos citar o shopping metrô Santa Cruz. O shopping Vila Madalena é o primeiro de uma série de projetos semelhantes que nós pensamos em fazer e estão em nosso pipeline. Temos três projetos engatilhados ainda para este ano ou 2010, que não podemos revelar quais são, pois ainda não estão fechados.
Gazeta Mercantil - Além de São Paulo, onde a Método concentra mais suas ações?
Temos também uma atuação grande no Rio de Janeiro. Hoje nós temos obras em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte e no que se refere às redes de varejo, no Brasil inteiro. Temos uma filial em Manaus para atender essas redes que têm abrangência nacional.
Gazeta Mercantil - E a atuação internacional se restringe à América do Sul?
Estamos atuando neste momento no Uruguai e na Argentina, de forma independente, com empresas constituídas nesses locais, com pessoal próprio. Na Argentina, temos a Método Argentina, onde 100% de nossos colaboradores são argentinos e a Método é 100% dona dessa empresa. Operação semelhante é feita no Uruguai. Mas nós estamos modificando esse conceito e, no futuro, nossa operação no exterior será uma extensão da operação feita aqui no Brasil. Nós tínhamos uma unidade de negócios internacionais e isso vai ser substituído pelas unidades de negócios que já temos em operação no Brasil, e que poderão atuar lá fora quando surgir uma oportunidade. Ter empresas constituídas nesses países representa um custo fixo, que, com obras ou sem obras, deve ser honrado. O que nós estamos fazendo é ter uma estrutura projetizada que significa que a gente cria estruturas para atender os projetos, mas deixamos de ter estruturas fixas, o que traz mais flexibilidade e pode ser feita em qualquer lugar.
Gazeta Mercantil - Há intenção de atuar em outros países além de Uruguai e Argentina?
Sim. Têm surgido várias oportunidades em vários países, tanto na América Latina quanto fora, mas neste momento, nós estamos evitando aproveitar essas oportunidades porque estamos estruturando essa nova forma de operação.
Gazeta Mercantil - O atual cenário econômico mundial também influencia nessa cautela?
Sim, sem dúvida. Mas nós acreditamos que o Brasil é um dos países que tem condições de sair da crise melhor e mais rápido do que a Europa e os Estados Unidos. Mas vai afetar a construção porque o setor tem a ver com investimento e existe investimento quando o país está crescendo. Não estamos deixando de fazer o que sempre fazemos, mas estamos nos preparando para entrar em outros segmentos como de infraestrutura, porque o investimento que vai ser feito no Brasil nas áreas de energia, de logística, de óleo e gás será feito com ou sem crise. Essa decisão de investimento não é feita pensando no mercado hoje, mas no longo prazo. Quando se decide fazer a ampliação de um porto não está se pensando no já, primeiro porque são obras que demoram anos e deverão estar prontas depois que a crise tiver passado. São investimentos com base em projeções de longo prazo. Assim, nós acreditamos que esses investimentos em infraestrutura vão continuar a ser feitos e de forma acelerada. Elegemos três áreas para entrar no setor de infraestrutura: energia, mineração e óleo e gás.
Gazeta Mercantil - Como se dará esse ingresso em infraestrutura?
O que nós estamos fazendo concretamente é criar uma unidade de negócios para a área de energia e estamos, atualmente, concentrados na produção de energia a partir da biomassa. Achamos que há um potencial muito grande para isso e estamos estudando profundamente esse segmento e temos alguns projetos em curso, que deverão resultar em ações a partir de 2010 ou 2011. Para atuarmos nesses setores onde ainda não temos uma capacitação, existem três maneiras. Uma é contratando profissionais que conheçam profundamente a área. Uma segunda maneira é por meio de alianças estratégicas com empresas que já estejam presentes nesse segmento e onde nós possamos agregar algum conhecimento. Por exemplo, a nossa competência de gestão de projetos pode ser levada da construção para esses setores. Assim, nós podemos associar nossa competência com o conhecimento específico de uma empresa dos segmentos de energia, mineração e óleo e gás. E a terceira maneira é por meio de aquisições, que é a forma mais rápida para entrarmos no novo segmento.
Gazeta Mercantil - Já existe alguma aquisição em andamento?
Estamos buscando ativamente algo nesse sentido, mas não podemos adiantar nada.
Gazeta Mercantil - Durante um tempo, vocês foram uma empresa de capital aberto, hoje não mais. Como foi essa experiência?
A Método foi durante alguns anos, de 1998 a 2005, uma empresa de capital aberto, mas não tínhamos ações cotadas em Bolsa porque nossos sócios eram fundos de investimentos - private equity -, que entraram em 1998 e saíram em 2004. Quando eles saíram nós fechamos o capital. Antes disso, já havia sido empresa de capital aberto. Houve uma época em que fomos capital aberto com a emissão de debêntures conversíveis. Lá pelas décadas de 1980 ou 1990 era preciso abrir capital para emitir debêntures conversíveis. As que não foram conversíveis, nós resgatamos e voltamos a fechar o capital.
Gazeta Mercantil - Há vontade de voltar a ser capital aberto?
A nossa estratégia de voltar ao mercado de capitais não é para oferecer exatamente a mesma coisa que outras empresa do setor. Nosso core business é serviço de engenharia. Pensamos na possibilidade de, no futuro, vir a captar recursos no mercado de capitais, mas como empresa de engenharia. Quando houve um grande número de empresas do setor da construção na Bolsa, nós não estávamos preparados. Gostaria que estivéssemos, mas não estávamos para ir ao mercado de capitais naquele momento. Estamos nos preparando para uma janela de oportunidades futura, que hoje é difícil de imaginar quando acontecerá. A decisão de entrar no mercado de capitais é estratégica, não é uma coisa que se faz porque tem gente investindo. E se estamos preparados para o mercado de capitais, também estamos para uma negociação com algum investidor estratégico que queira entrar na empresa e depois sair, com a abertura de capital.
Gazeta Mercantil - Como vocês tratam a questão do caixa para executar um projeto?
Nós estamos comemorando agora o fato de que vamos terminar este mês com zero de endividamento aqui no Brasil, pela primeira vez nos últimos 15 anos e queremos permanecer assim. Nós queremos que a Método tenha zero de endividamento na sua atividade principal que é prestação de serviço de engenharia. Já para nossos empreendimentos, daí sim, cada projeto poderá ter um tipo de financiamento que seja o mais adequado aquele negócio. Por exemplo, para shopping centers certamente nós iremos buscar algum tipo de investimento ou financiamento. No caso do shopping Vila Madalena nós faremos algum tipo de operação de securitização de recebíveis, ou podemos fazer com recursos de algum investidor ou mesmo com recursos próprios. A decisão vai depender do nosso fluxo de caixa. No caso do shopping Vila Madalena teríamos condições de bancar o custo sozinhos, mas como nossa intenção é fazer outros projetos similares é preciso analisar o conjunto. Mas não é nossa intenção nenhum tipo de endividamento direto na empresa.
Gazeta Mercantil - Como a empresa trata a questão da sustentabilidade?
Nós somos pioneiros nessa questão no Brasil. Fomos a primeira empresa brasileira que se associou ao US Green Building Concil, órgão que emite a certificação Leed e somos membros-fundadores do Green Building Council Brasil e do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável. Nós estamos também participando de um outro movimento, o Global Alliance para Construção Sustentável que é uma reunião de 22 países e uma série de entidades técnicas visando unificar os conceitos de sustentabilidade e a questão de certificação. Esse é um modelo que surgiu originalmente na Europa e fazem parte desse grupo países como a França, a Inglaterra, a Itália, alguns países escandinavos e várias instituições de pesquisas desses países. Na América do Sul, o Chile está associado ao grupo, que adota o modelo francês de certificação, que é representado aqui no Brasil pela Fundação Vanzolini. É possível ter uma construção certificada aqui no Brasil, dentro do modelo francês, feita pela Fundação Vanzolini.
Gazeta Mercantil - Pela Fundação Vanzolini, o processo de certificação seria feito com mais rapidez.
´Não só isso, mas também ter um modelo de certificação adequado ao País, que hoje segue o padrão norte-americano, que dá grande importância à conservação de energia e em algumas situações, a conservação de água é tão ou mais importante do que a de energia. Aqui no Brasil não são importantes apenas as questões ambientais, mas também questões sociais e econômicas. A social tem muito a ver com a comunidade, o local onde será erguido do empreendimento. Aqui no Brasil, presenciamos com frequencia um empreendimento sendo implantado numa região gerando oportunidades de trabalho, só que as pessoas não estão preparadas para aproveitar essas oportunidades e vivem à margem do projeto. A preocupação agrega muito valor ao empreendimento. Para isso, temos de ter uma equipe multidisciplinar.
Gazeta Mercantil