Localizada na pequena cidade de Barreiros, litoral sul pernambucano, a Praia do Porto foi escolhida para abrigar o The Reef Club, primeiro empreendimento turïstico-hoteleiro do pais corn projeto certificado pelo selo de construção sustentável Aqua, Alta Qualidade Ambiental, lançado em abril deste ano. O certificado é concedido por um convênio entre a Fundação Carlos Alberto Vanzolini com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e tem por base as premissas de compromissos ambientais, sociais e econõmicos nas obras desenvolvidas pela certificação francesa HQE - Haute Qualité Environnementale, adaptadas para o mercado brasileiro. As normas do selo estarão presentes desde a concepção do projeto até a construção e finalização de toda a obra, que contará corn um investimento total de RS 1 bilhão. O pólo será formado por dois re-sorts e mais um conjunto de 3.600 casas de veraneio, 70% já vendidas como segunda residência para europeus aposentados, além de um campo de golfe e vilas comerciais.
A construção será feita pela Método Engenharia em unia área de 500 hectares e, por sua proporção, levará em conta no projeto a preservação cia biodiversidade, adoção de meios alternativos de transporte interno, energia renovável, escolha de materiais sustentáveis e de fácil manutenção e até contratação e treinamento de mão-de-obra lo-cal. "A aplicação dos critérios do selo em um imóvel hoteleiro é piloto canto no Brasil quanto na França, pals de origem da certificação", afirma Manuel Carlos Reis Martins, coordenador executivo da certificação Aqua da Fundação Vanzolini, que conta-rá com apoio cio governo francês na avaliação da obra. "Se conseguirmos inovar e avançar em soluções arquitetõnicas nesse sentido, o Brasil será o primeiro a obter o selo nessa categoria", explica Reis Martins.
O projeto do complexo hoteleiro pertence ao grupo espanhol Brasil Real State, controla-dor do Qualta Resorts, e mostra como a preocupação ambiental no setor de construção tem ganhado força no Brasil, seja pela consciência da finitude dos recursos naturais, cada vez mais divulgada, seja pela preocupação dos investidores em valorizar seus empreendimentos no longo prazo. Prova disso é que, apesar do lançamento recente, o selo Aqua já está sendo analisado por outros dois hotéis e mais dois edifícios, um comercial e outro residencial, interessados em construir de forma verde. "Esperamos que esse número avance hem mais até o final deste ano", estima Martins.
O interesse pelo LEED - Leadership in Energy and Environmental Design, selo pertencente ao conselho de construção sustentável americano Green Building Council, também avança. O selo foi concedido pela primeira vez no pais em julho de 2007, para uma agencia do Banco Real, na Granja Viana, em Coda, São Pau-lo. Tijolos reciclados, tinta sem solvente e assoalho e móveis fei
tos de madeiras certificadas foram alguns dos insumos usados na concepção do imóvel. "O LEED é concedido de 4 a 6 meses de-pois da obra ser finalizada. Hoje temos mais de 60 empreendi-mentos em processo de certificação, 75% concentrados em São Paulo e 70% deles comerciais", afirma Nelson Kawakami, diretor executivo do Green Building Council no Brasil. Para se ter uma idéia de coma o mercado brasileiro ainda engatinha na concessão de certificados verdes, 1.250 imóveis americanos são certifica-dos pelo selo e outros 12 mil es-tão em avaliação. "Mas a situação por aqui melhorou muito. Em 2005. quando o LEED chegou ao Brasil, tínhamos apenas dois consultores, hoje são 20. Espera-mos que esse número aumente para 100 até 2010", divo diretor.
Na lista de imóveis à espera do diploma verde concedido pelo Green Building Council estão as duas torres do Ventura Corporate Towers, no Rio de Janeiro, e do RochaVerá Plaza e Eldorado Business Tower, em São Paulo. Os três empreendimentos tiveram cuidados
ambientais na concepção do projeto, obra e manutenção dos edificios, tais como critérios sustentáveis na escolha de materiais e uso de soluções de recursos naturais renováveis, seja na parte de iluminação, ventilação e energia.
Apesar de terem tido o apoio do GBC no Brasil, depois da finalização da obra eles terão de entrar na fila para o pedido do selo nos Estados Unidos, de onde são ditadas as regras para a aplicação do LEED. Diferente do selo Aqua, o certificado não conta com uma fiscalização do órgão no local da obra e, como no resto do mundo, ainda não teve uma adaptação brasileira. "Isso obriga o dono do imóvel brasileiro a ter preocupações excessivas, por exemplo, com redução de energia, que nos EUA funciona à base de carvão ou petróleo, mas aqui é a gás ou elétrica", comenta Paulo Lisboa, da Asbea - Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura. As críticas à falta de contextualização fizeram com que no Brasil fosse formado um comitê com acadêmicos, especialistas e profissional técnicos, para adaptar o modelo americano à realidade do país. "Isso será levado aos EUA, mas deve demorar um bom tempo para ser aceito por eles e aplicado aqui", Kawakami.
A abordagem dos dois selos em aspectos gerais também é diferente. O LIED tem um sistema de pontuação dividido em prata, ouro e platina, conforme os requisitos sustentáveis obrigatórios que a construção atinja e priorize até o final. A concepção do projeto pode ser alterada durante a execução da obra, desde que não saia das seis normas principais estabelecidas pela reguladora americana, de localização, uso racional de água e energia, qualidade interna, material usado e inovação. Ao todo são 69 recomendações, mas um mini-mo de 26 têm de ser preenchidas. Já a certificação Aqua conta com auditoria presencial em três fases diferentes: projeção, construção e manutenção. Os critérios de desenvolvimento são divididos em 14 categorias que precisam ser atendidas, mas com a liberdade de escolha de priorização e adequação de cada um dos itens, que recebem qualificação boa, superior ou excelente conforme a avaliação do todo. O selo é concedi-do nas três fases de execução do projeto, contanto que o imóvel obtenha, no mínimo, sete avaliações boas, quatro superiores e três excelentes. "Há vantagens e desvantagens nos dois sistemas. No LEED o projetista pode mu-dar o plano no meio do caminho se houver necessidade, apesar de termos de pensar em soluções climáticas baseadas no cenário americano. Já o Aqua dá liberdade para o projeto ser adaptado ao Brasil, mas tem muito rigor na sua concepção que, urna vez definida, não pode ser alterada", co-menta Ana Rocha, gerente da área de sustentabilidade da Método Engenharia.
Para o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, os diplomas verdes não comprovam que a construção é sustentável, e sim que traz menos impactos ao meio ambiente e sociedade. "Mais do que analisar a construção do imóvel, é preciso avaliar a localização e a manutenção dele no passar dos anos", comenta Marcelo Takaoka, presidente do Conselho.
Valor Econômico