Uma proposta aparentemente comum - transformar o uso de um edificio comercial para residencial a partir de um processo de retrofit - ganha caráter inusitado nesse projeto. O antigo edificio Alameda Park, construído na década de 70 e ocupado por escritórios, acaba de ser reinaugurado como prédio de apartamentos residenciais, após trabalho de recuperação e de acréscimo de um bloco novo. O projeto ficou a cargo do arquiteto Isay Weinfeld que enfrentou o desafio apresentado pelos incorporadores, a Método Engenharia e o Banif (Banco de Investimento), de viabilizar dois propósitos: preservar a estrutura do prédio antigo e construir uma edificação anexa à existente.
O resultado foi um prédio de destacada elegância com apartamentos de altíssimo padrão, numa localização nobre e privilegiada da Vila Nova Conceição, bairro residencial de classe alta da capital paulista. A vista panorâmica para o verde do Parque do Ibirapuera fez com que fosse renomeado de Edifício Panorama.
O terreno de 1.186 m2, estreito e com 70 m de comprimento já abrigava o antigo prédio construído nos fundos do lote, com um recuo exagerado de 34 m, o que tornou possível a construção do novo edifício, que ocupa ape-nas 16 m desse recuo, correspondendo à ala social (estar e varanda) dos apartamentos, além da cozinha e dependências de serviço. A ala íntima ocupou os espaços do prédio antigo. O primeiro edifício tem 4.149 m2 construí-dos e o prédio novo, 807 m2, totalizando uma área construída de 4.956 m2.
O bloco existente precisou de adaptações para tornar-se mais funcional. São oito andares mais dois subsolos e várias plantas de apartamentos, permitindo um leque maior de opções para os futuros moradores. Assim, o pavimento-tipo possui 430 m2 e a cobertura duplex, 582 m2 com mezanino e solário. Há ainda o apartamento underground, com 609 m2, que ocupa o primeiro subsolo e parte do térreo, onde está o mezanino com as suítes.
A criação do apartamento underground foi uma idéia ousada e original do arquiteto Isay Weinfeld, talvez única em um prédio residencial: aproveitar uma área de garagem no subsolo para implantar o maior dos apartamentos do edifício, onde se destaca a sala de estar com pé-direito duplo voltada para um jardim com muros cuja altura atinge o piso do primeiro andar. A solução do underground viabilizou-se pela ausência de qualquer área de uso comum no térreo, tendo em vista o perfil do morador.
Para se ter uma idéia da generosidade dos espaços de todos os apartamentos, basta citar que somente uma das suítes chega a ter aproximadamente 90 m2, o dobro das varandas que ocupam a parte frontal e as laterais, também amplas, com 46 m A única exceção fica para as dependências de serviço, bastante reduzidas se comparadas à área total dos apartamentos.
O espaço da lavanderia, por exemplo, possui apenas 5 m2. Segundo o engenheiro Ricardo Guedes, diretor da Unidade de Negócios - Edificações Imobiliárias da Método, o projeto foi concebido para famílias pequenas, no máximo um casal com um filho, e solteiros, por isso não requer uma área de serviço muito grande. As prioridades focaram no conforto e amplidão da ala íntima.
O empreendimento oferece o máximo em termos de conforto. Nos banheiros, o piso aquecido soma-se às enormes banheiras de hidromassagem, ao aquecedor de toalhas e ao desembaçador de espelhos. O estar e a suíte máster têm lareiras. Os apartamentos contam ainda com ar-condicionado no sistema VRV (volume de refrigeração variável), elevadores monta-carga para cobertura e underground e cofre de segurança embutido na alvenaria, entre outros itens referentes à tecnologia de última geração, como dutos para aspiração central, instalações adequadas para telefonia e informática, inclusive wireless. Não é à toa que o preço das unidades varia de três a seis milhões de reais.
Para ligar os dois prédios foi necessário demolir a fachada principal do existente. Atrás dessa fachada havia a caixa da escada e dos dois elevadores, espaço que atualmente abriga o cor-redor de ligação entre as alas íntima e social das unidades, demarcado pelo fechamento lateral de tijolos de vidro, solução que tornou o espaço permeável à luz. "O desafio técnico e construtivo foi erguer uma nova edificação sem perder o prédio que já existia", declara o engenheiro Ricardo Guedes, da Método.
Naturalmente pesou na decisão dos incorporadores uma minuciosa avaliação técnica do edifício existente, de modo a haver plena segurança quanto à conveniência da operação: de um lado, o custo do imóvel, deprecia-do pelo tempo, e, de outro, os investimentos necessários para adaptá-lo à nova função, atendendo às sofisticadas exigências desse perfil de mercado.
Assim, foram adotados cuidados especiais com a parte estrutural, em particular com a construção das lajes do bloco novo nos mesmos níveis das existentes - separadas por junta de dilatação - porquanto exigiram estudo minucioso e mapeamento topográfico completo. Foi decisão do arquiteto deixar toda a estrutura do edifício aparente, com as vigas de bordo salientes em relação ao plano das fachadas, constituindo-se em elemento plasticamente marcante da edificação. Essa continuidade visual entre o novo e o antigo exigiu a regularização e o alinhamento das vigas do prédio antigo, precisão de acabamento assegurada com o emprego de plataforma periférica.
Confirmando a intenção do arquiteto de atribuir à estrutura um importante papel na solução plástica do edifício, as colunas do bloco novo também ficam aparentes no terraço frontal, que tem balanço de 3,5 m e se alonga pelas laterais com tratamento em forma de deck. Em concreto aparente tratado com sili.
O fechamento com caixilharia e cone, essas colunas ganham destaque com o recuo do pano de vidro do estar. A caixilharia de alumínio pintado de verde contorna toda a ala social do novo bloco criando a transparência necessária para visualização da paisagem. Também foi adotada no prédio antigo de modo a assegurar unidade ao edificio.
A entrada conta com paisagismo discreto formado por canteiros verdes contrastando corn o cinza do concreto e recebeu bancos de madeira, elemento presente em outros trabalhos do arquiteto, que prima pelo despojamento e a simplicidade em suas obras, mesmo em casos como o Edifício Panorama, empreendimento de alto luxo. "O que busco em algo luxuoso", diz Isay Weinfeld, "é ser simples e despojado, não gosto do luxo enquanto ostentação. Para mim, o luxo está expresso no conforto, na generosidade e qualidade dos espaços".
DADOS TÉCNICOS
Area do terreno: 1.186,27 m2 Área construída: 4.956,26 m2
FICHA TÉCNICA
Arquitetura: Isay Weinfeld, com Domingos Pascali Coordenadora: Monica Cappa
Equipe: Havia Oide e Estevam Martins Construção: Método Engenharia Projeto da estrutura de concreto: CEC Companhia de Engenharia Civil
Projeto da estrutura metálica: VMC Projetos Mecânicos e Estruturais
Projeto de fundações: Consultrix
Projeto de instalações elétricas e hidráulicas: Procion Engenharia
Projeto de ar-condicionado e exaustão: Teknika Projetos e Consultoria
Projeto de automação: Si2
Projeto de paisagismo: André Paoliello Paisagistas Associados
FORNECEDORES
Marmoraria: Clodomármores e Pedras Faro; tampo do lavabo: Serpol; cerâmica: Gail e Portobello; pastilha cerâmica: Jatobá; banheira: Jacuzzi; louça sanitária: Deca e Icasa; metais: Deca e Fabrimar; tampos de inox: Fabrinox; iluminação: Companhia de Iluminação; espelhos elétricos: Siemens; tijolo de vidro: Margem Projetos e Vidromatone; revestimento externo: Italit (Maxcril flocado médio); caixilharia de alumínio: Gialpi; elementos vazados: Neorex; fechaduras e maçanetas: La fonte; ferragens da porta social: Dorme; conchas metálicas: Teya (a partir de desenho do arquiteto); lareiras das suites: Calorarte e Lareiras Philippe - linha ecorradiante; lareiras da sala de estar: Serv-lar Lareiras e lareira projeto do arquiteto; (1° ao 6' e dúplex de cobertura), Serv-lar Lareiras - lareira projeto do arquiteto (dúplex underground) com duto aparente de aço inox; volumes externos aparentes: tijolo de demolição; serralheria: Gradimetal; aspiração central: DK Sistemas (Beam Systems); marcenaria: Perc e Guilhem
Revista Arquitetura e Urbanismo