RESPONSABILIDADE SOCIAL E ÉTICA
Segundo a União Nacional por Moradia Popular, faltam cerca de 7,5 milhões de residências no País. Além disso, mais de 10 milhões de casas existentes são consideradas inadequadas, pela falta, direta ou indireta, de pelo menos um dos serviços básicos, como energia elétrica, rede de abastecimento de água, lixo coletado, rede coletora de esgoto ou fossa séptica.
Vamos ficar no déficit de 7,5 milhões de casas. Considerando-se a média de quatro pessoas por família, temos um total de 30 milhões de sem-teto. Em vez de comparar com quase duas Grande São Paulo, ou uns 430 Morumbi, vou dizer que essas 30 milhões de pessoas correspondem a quase o mesmo número do total de brasileiros que acessam a Internet.
Muito já se falou dos tipos de casa populares e de materiais reciclados usados em construção, o que ajuda a baratear o custo. Uma das primeiras idéias foi a do tijolo de solo estabilizado, cuja receita é simples: mistura-se solo, água e cimento e leva-se a massa para uma prensa. Depois de sete dias protegido do sol, o tijolo está pronto, ao contrário do de olaria, que, para secagem natural, precisa de 10 a 30 dias, dependendo do tempo. Os rejeitos acumulados nos pátios de fábricas de química, metalurgia, siderurgia, mineração, pedreiras e galvanização, em vez de problema, se transformaram na base para a composição do cimento verde. São idéias do professor de engenharia Francisco Casanova (extinto site NO., 27/8/2001).
O empresário Valdir Gimenes e o arquiteto e ambientalista Sérgio Prado também tiveram seu trabalho de professor Pardal voltado para o bem dos menos favorecidos: "desenvolveram um sistema integrado de casas populares construídas à base de plástico, que chamam de 'madeira sintética', sobre as quais é possível instalar verdadeiros jardins ou hortas hidropônicas, criando bairros e cidades verdes" (O Estado de S. Paulo, 5/2/2003).
A máquina criada por Gimenes "mói o plástico, que é prensado e vira matéria-prima para a fabricação de tijolos e barras de plástico duro", dando origem às paredes. Para o teto são usadas embalagens TetraPak, além de outras de metal e isopor. Ao contrário do que se possa pensar, a casa construída assim "é resistente ao fogo e a cupins e suas paredes permitem a colocação de azulejos".
Em abril de 2003, a TRW Automotive Ltda., de sistemas de segurança automotiva, concluiu uma fábrica de tijolos ecossociais em Limeira, SP. Na prática, resíduos antes destinados a aterros sanitários, passaram a ser usados na produção de tijolos.
Em junho de 2003, a Racional Engenharia estava construindo o Edifício Torre Almirante, dentro do projeto de revitalização do centro do Rio de Janeiro. A empresa passou a reaproveitar o entulho retirado de parte da obra para a fabricação de novos blocos de concreto, doados à construção de casas populares.
Mais recentemente, as construtoras começaram a descobrir as "vantagens do produto ecologicamente correto", como mostrou o Valor Econômico (13/9/2006), só que, agora, na construção de habitações para as classes de melhor poder aquisitivo.
O jornal falava da madeira certificada e citava as construtoras paulistas Setin e Tecnum que começaram a avaliar quais de seus fornecedores trabalhavam com esse tipo de material para iniciar as compras: "Apesar da madeira bruta certificada ser 10% mais cara, a construtora não vai repassar o custo para o consumidor".
Para Marcelo Takaoka, presidente da construtora que leva o nome dele, o uso do material certificado é um processo irreversível na construção de alto padrão: "O mercado é muito competitivo e nenhuma construtora vai querer perder pontos com o consumidor".
Isso é interessante porque mostra que a consciência do consumidor já é um fator de pressão para as construtoras. A reportagem do Valor dizia mais adiante: "A Método Engenharia, que faz projetos completos para hotéis, incluindo mobília e decoração, tem dado preferência para móveis certificados".
E para quem duvida da resistência dos materiais ecológicos, a Agência Envolverde (2/8/2002) trouxe a seguinte notícia: "A independente União Ecológica Salvadorenha (Unes) e dezenas de famílias de El Salvador aliaram-se para combater o mito da fragilidade das construções de adobe, os tradicionais tijolos de argila crua e secos ao sol. Ambientalistas e líderes comunitários construíram 70 casas de adobe seguindo um projeto especial para resistir a terremotos como os que devastaram El Salvador no ano passado".
Moradia deveria ser direito de todos. Na prática, não só na teoria. Moradia feita com respeito à natureza deveria ser obrigação. Também de todos e na prática, claro.
Engel Paschoal (engelp@terra.com.br) é jornalista, especialista em assuntos relacionados ao chamado Terceiro Setor, e realiza cursos e palestras sobre Responsabilidade Social. Este artigo somente poderá ser reproduzido ou publicado com autorização prévia do autor.
Jornal O Povo