Empresas investem em segurança para reduzir custos com saúde de colaboradores e para minimizar danos
O aumento das exigências legais e da preocupação das empresas em reduzir custos e evitar abalos de imagem provocados por acidentes, como o desabamento ocorrido nas obras de construção da Linha 4 do metrô da capital paulista, tem consolidado a importância da atuação de engenheiros e técnicos especializados em segurança do trabalho na construção civil, levando à regulamentação das atividades e ao surgimento de novos cursos. As iniciativas têm gerado avanços: nos últimos dez anos, o número de mortes na construção civil caiu de 138 para sete, no estado de São Paulo, de acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon). Atualmente, existem 33 normas voltadas à segurança no trabalho.
Graças a uma resolução promulgada pelo Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), em dezembro do ano passado, a atividade de Engenharia de Segurança do Trabalho, recebeu um acréscimo de atribuição profissional, passando de especialização a modalidade. A mudança originou as Câmaras de Engenharia de Segurança, criadas pelos Conselhos Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea), para analisar e fiscalizar o exercício legal da profissão.
"Elas foram criadas para analisar a legalidade e o mau exercício da profissão, a partir de denúncias de desvio de conduta previstas em nosso código de ética. Podemos aplicar desde advertências até o cancelamento do registro, por negligência, imprudência ou imperícia, por gravidade ou reincidência do profissional. Também iremos combater o exercício da atividade por leigos e as responsabilidades podem ser imputadas nas esferas civil, criminal e trabalhista", afirma José Tadeu da Silva , presidente do Crea-SP.
Cursos
Como conseqüência, os cursos de especialização na área devem aumentar. A Escola de Engenharia Mauá, por exemplo, irá lançar, no segundo semestre, um curso de pós-graduação em Engenharia de Segurança no Trabalho. De acordo com Márcio Estéfano , professor do curso de Engenharia Civil e Ambiental da Escola de Engenharia Mauá, "há uma procura muito grande por este curso, por profissionais enviados por empresas, pois elas estão sendo forçadas a melhorar suas condições de trabalho e a reduzir custos com saúde dos funcionários".
Ele aponta uma tendência de unir as áreas de segurança no trabalho e o meio ambiente. "Temos observado, através de estudos, que o aumento da segurança do trabalho com a redução de impactos ambientais reduz custos. As empresas conseguem otimizar os processos industriais e melhorar a condição de trabalho de seus funcionários", afirma ele.
A criação de uma nova norma regulamentadora referente às condições e meio ambiente de trabalho na indústria da construção, a NR-18, obrigou as grandes empresas de construção civil a implementarem medidas de controle e sistemas preventivos de segurança em sua gestão.
"Esta norma abriu uma área para engenheiros e técnicos de segurança", afirma Haruo Ishikawa , coordenador de Gestão de Segurança, Saúde e Medicina do Trabalho do Sinduscon-SP.
O engenheiro desenvolve o Programa Sinduscon de Segurança, que atende a exigência do Ministério do Trabalho para promover melhorias nas condições de trabalho. "Fazemos um diagnóstico dos canteiros de obras em todo o estado e, nos locais que apresentam problemas, estimulamos a realização de workshops e palestras para assim aumentar a conscientização dos trabalhadores e dos empresários", explica.
O especialista Walter Bretas também é otimista. "Estes profissionais sempre terão mercado, que até está carente. Construtoras de bom nível estão sempre buscando profissionais", afirma.
Engenheiro civil, formado em 1981, Bretas é gerente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Método Engenharia, especializada em gerenciamento de obras, atuante no segmento de edificações residenciais, comerciais e industriais. Ele se especializou em Segurança no Trabalho há 12 anos e considera o mercado extremamente atraente, por conta da realização de projetos acoplados à produção. "A segurança no trabalho usa muito o planejamento, o que melhora a vida do engenheiro, que trabalha com resultados", diz.
A interação com o mercado externo também tem ampliado a demanda, pois, para concorrer às licitações para construção de obras em outros países, as empresas devem seguir as normas internacionais. "Existe uma certificação norte-americana, Ohsas-180001, que foi criada com as mesmas especificações da ISO, pra que a empresa aplique as normas de segurança e saúde no trabalho e tenha práticas que levem a resultados comprovadamente eficazes", comenta.
Terceirização
Por outro lado, fora dos eixos Sul e Sudeste, há muita carência na aplicação de práticas de segurança no trabalho. "Muitas empresas não atendem nem o mínimo das normas, em parte por culpa do Ministério do Trabalho, que não fiscaliza as obras", comenta.
Ele afirma que, embora a legislação obrigue as empresas a contratar profissionais de segurança em seu quadro interno, muitas optam por terceirizar, o que pode ser um risco. "No caso da obra do Metrô, por exemplo, o consórcio simplesmente tomava as ações que deveria tomar, não havia um gerenciador [do contratante] na obra para estabelecer as condições mínimas de segurança."
Ao gerenciar uma obra, a Método obriga as empreiteiras a cumprir as normas de segurança estabelecidas pela empresa.
"Para cada obra traçamos um plano de segurança. Depois de habilitá-las, fazemos um plano de trabalho para aquela obra e indicamos as normas de segurança, de acordo com o nosso padrão de qualidade."
Procuradas pela reportagem para comentar o assunto, as construtoras Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Cyrella, Rossi Residencial e Tishman Speyer não responderam.
DCI